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Escorpiã Renascida
Escorpiã renascida,
começaria mudando os vestidos.
Acordaria Rei Midas, magra.
Sem brancos nem lapsos e sem devaneios.
Completamente inteligente e gamada.
0 objeto amoroso, sujeito a egotismos, corresponderia.
Exijo anjos da guarda.
Nunca abrir mão deste séquito.
No mais, morte instantânea.
Estando eu conservada.
Felicidade é isto.
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Maíra Dançando
0 olho da filha me faz mais bonita,
quero chorar e acho graça pra que ela me veja.
0 riso da filha é milagre, penso.
Quero ser feliz para recebê-lo, mesmo sem chão,
mesmo com tantas dificuldades.
Ela olha, e vê a mãe tocando as amarguras pra frente
com a barriga
como quem dança um xaxado.
Se ninguém tão lindo me visse,
no instante em que a terra se abre e eu despenco,
provavelmente fecharia os olhos
e me deixaria morrer de queda, de gordura, de rugas,
de rancor, de vingança contra o sistema,
de mágoa contra o mundo que não me abre a Porta da Esperança.
Mas logo logo ela vai chegar da escola,
de sandalinha Melissa, cabelão, corpo esculpido e forte,
sem se dar conta da própria exuberância,
e vai cantar com Gil e Caetano pelo apartamento
enchendo o universo de acordes e alegria.
E talvez eu dance com ela, mesmo de olhos inchados,
pra me lembrar de como é mesmo que se vive a vida
porque eu sabia e esqueci.
RIO DE JANEIRO É A CIDADE QUE TE SALVA
RIO DE JANEIRO é a cidade que te salva. Vê-la, moça bonita que sangra por dentro, esconderijo das balas amargas perdidas depois de cortar o vento, encravadas bem aqui. Menina mantendo o viço das curvas femininas, das águas inconscientes, pedras, planta e mar. É doce lambê-la com os olhos, mergulhar nas paisagens instáveis que se renovam, irrequietas adolescentes, a cada mudança de perspectiva. E quando penso em deixá-la, sinto que é tão criança ainda, desprotegida, quase órfã. Há quem ame o sertão, o estio, as geadas, as esticadas planícies com muito muito mais nuvens. Outros que se aconchegam e se refinam em casacos, lareiras, trajetos seguros, fartura, ônibus sem assaltos, famílias circulando em plena rua, de noite, sem o aperto do medo, sem o perigo de vida, águas cristalinas, onde se pode nadar e beber. Mas não é você. Você é gente de pele amarronzada, pelo sol ou pela estirpe, que sente prazer em suar, em provar a lágrima salgada do fim de expediente, quando pensa que a vida, o amor, a tranqüilidade financeira, tudo podia ser diferente. Você tem medo de perder as esperanças, envelhecer e morrer sem realizar o sonho do bom companheiro, do dinheiro guardado, da profissão gratificante, da Lagoa e da Baía de Guanabara limpas, das crianças na escola, asseadas, amadas de barriga cheia. Infância que também sangra por dentro, escondendo suas mazelas. Amá-la, a cidade, vez que enraizada nela. Inseparáveis, concha e ostra e pérola, e marisco, e água, e pedra. Informal, alternativa, periférica, paradoxa, confusa. Hemorrágica, bela. Cuidem dela.
Narcisista, a cidade contempla a si mesma. Que linda estou hoje, pensa, crepúsculo vermelho alaranjado, raspinha de lua do outro lado, fogosa ou inocente, de acordo com nosso olhar. Vira a cabeça pra lá e ela mesma se assombra com a força das cores, com a imensidão do fim do dia, alguém ouve tambores? Alguém teme a Deus? Vira a cabeça pra cá e ela própria se consterna com a timidez da lua, candura azul de criança inocente, mansidão de noite novinha que nos acalenta, alguém ouve harpas? Alguém acredita em anjos? Engarrafada no trânsito, a gente que volta pra casa nem pensa que ganha tão pouco, que às vezes ostenta, que há perigo na linha amarela, nos túneis escuros encravados em rochas, e exploração nos preços, e execuções sumárias, e cruzamentos congestionados como um nariz bem gripado por onde o ar não tem como transitar. A cidade está doente mas é tão bonita e tão querida que olhando não dá pra notar.
Do tempo em que o nascer espetáculo do sol no mar era da boemia, dos amantes que cruzavam o breu da noite ardendo no fogo do desejo, fogo bola que sobe vermelha derramada cobrindo o mundo de branco prata feito fumaça fresca de freezer. Hoje o sol nasce menino vampiro em plena insônia, rajadas de metralhadoras varam o preto estrelado assustando principalmente as crianças, foguetórios do crime.
Paisagens Cariocas
(Sala 1)
Galeria Fotográfica
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RIO DE JANEIRO. Quem olha não diz. Tamanha belezura passando por tantas dificuldades. É que Deus te fez forte, morros de pedra, hidratada, azul no céu dos olhos, marejada, alegre mesmo na dor. As maravilhosas também enfartam. Quando tensas, pressionadas, sem recursos, baleadas pela indiferença. Não são os tiros que matam, é a indiferença.
As janelas da cidade são labirintos de espelho misturando favelas, verdes vistas cariocas e infinitos ângulos do Corcovado onipresente. Lá vamos nós, procurando apartamentos. Como peixes perdidos de um cardume, como cupins que devoram o cimento da cidade. Rastreamos, confiantes que há algo e que nos espera. Pássaros migram e voltam seguindo as oscilações do tempo, o pulsar das quatro estações. Nós vamos e voltamos seguindo a maré das circunstâncias, fugindo do oscilar das bolsas de valores, dos planos mirabolantes dos governos e porque somos sensatos, tentamos transformar a estranheza em aventura. Ladeiras, favelas, barulhos, escadas, lonjuras, bailes funks balançam os preços. Vista, metragem, praia, comércio, segurança, silêncio. Combinamos nossos ingredientes de acordo com o dinheiro. O alcance da bala perdida. O alcance da conta bancária. Onde baterá o sol? Serão ruidosos e briguentos os vizinhos? Tem vista pra favela, pra Baía, pro Cristo, pro verde, pro tiroteio? Esticamos bastante o pescoço e temos tudo: a favela, a baía, o verde, o Cristo e o tiroteio. Quero a vista panorâmica, o parque, a piscina e a praia. Quero ver Cristo. De longe, estou nova ainda.
A praia de Ipanema hoje pareceu-me estranha. Ameaçada pela possibilidade de não mais ser minha. Distanciava-se de mim, enquanto temia perdê-la. Dei-me conta, então, de que há dois anos não é mais a mesma. Lá, já não encontro amigos. A água hoje turva em nada lembra Ipanema dos bons tempos do Posto 9, quando o clima era de festa. Temendo não tê-la, constatei que há muito ela já não me pertencia. E voltei para casa sem cumprimentar amigos. Como um estrangeiro de visita numa praia estranha.
Procurar apartamento na cidade do Rio de Janeiro é tarefa para uma vida inteira. Diferentes linhas formam o desenho imaginário dos nossos curtos trajetos cotidianos. Diferentes linhas formam o desenho imaginário dos meus curtos trajetos cotidianos. Aprendo mais da cidade, transitando. Às vezes me desoriento. Feito uma formiga que segue um rumo introjetado, traço no mapa do Rio novas perspectivas. Maritacas, pombos porcos, árvores tortas do Aterro. Passeios de descobrimentos. Convalesço familiarizando-me.
Contra tudo e contra todos, saí da minúscula Zona Sul e fui à 28ª Delegacia, em Campinho, resgatar meu celular roubado. O ladrão foi preso horas depois porque uma brava senhora, também assaltada, de longe o seguiu e chamou a polícia. Viva ela! Adorei o passeio. No caminho vi homens e meninos nos telhados, sem camisa, o céu vermelho de fim de tarde supremo fazendo palco pra eles soltarem pipas. Eram tantas, graciosas, coloridas. Soltar pipas é um esporte solitário, que exige mãos firmes, leveza, cabeça fresca, autocontrole. Uma arte que o homem faz com papel e vento. Embelezavam o crepúsculo. Não me refiro às pipas, mas aos meninos e aos homens.
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O CARIOCA
O carioca tem uma qualidade, que de tão grande virou defeito. Não nega informação na rua. Faça o teste. Pergunte a um carioca onde fica a Rua Tal. Se ele souber, repare seu olhar de satisfação. Não vai se contentar em detalhar o caminho uma só vez. Vai ficar repetindo, feliz, até ter certeza que você entendeu.Porém... se ele não souber a localização da Rua Tal, observe sua expressão de descontentamento. O carioca vai olhar arregalado em volta, fazer um esforço sobre-humano, cavucando a memória, aflito. E, se de todo não puder ajudar, vai dizer qualquer coisa, é capaz até de inventar que é pra lá. E não será por maldade. Simplesmente o carioca, quando abordado por alguém perguntando onde fica a tal lugar, não consegue responder simplesmente:
- Desculpe, eu não sei.Se for um carioca mais descolado e não souber, nunca tiver ouvido falar nesse lugar, vai rapidamente mudar de lado e juntar-se a você, chamando, com ares despachados, o primeiro passante e perguntar:- Por favor, amigo, o camarada aqui quer saber onde fica a Rua Tal.
A Antropologia explica mais que Freud. Esse comportamento atávico teve sua origem nos primeiros contatos entre tribos indígenas semi-nômades e estrangeiros perdidos na selva. Os índios eram tão alegres e geograficamente tão situados, e os estrangeiros tão desorientados e medrosos, que nada doía mais na alma ingênua de um silvícola do que encontrar aqueles branquelos peludos e magrelos suando e desidratando em suas botas, a poucas passadas de um riacho doce embutido na mata.
Naquela época nem precisava perguntar nem gesticular: água, água, água... Era só olhar pra cara suada e faminta do gringo perdido e assustado e apontar? Não. Os índios faziam questão de levá-lo até lá.
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ESTÁTUAS
Estátuas Galeria Fotográfica - Sala 9
As mulheres semi-nuas que, como spans, invadem os espaços da cidade, não estão presentes somente nas capas das revistas, outdoors, traseiras de ônibus e ponto deles, nos luminosos e iluminados anúncios que tentam vender carros, justapondo peitinhos e bundão empinados sobre o carro dizendo: compre um carrão e ganhe grátis um mulherão. Não. As mulheres semi-nuas vão além. Estão presentes em espaços públicos e, principalmente, em frente a igrejas.
Por que em frente às igrejas encontramos estátuas de mulheres nuas? Que nudez é essa que enfeita as praças, vigilantes abençoadas pela cruz de Cristo? Às vezes separadas, mulher nua e igreja, por viadutos modernos que interromperam a cadeia mágica: praça, mulher, nudez, igreja, crucifixo, água, chafarizes, seios, tudo combina com a casa de Cristo. Mas os transeuntes, sempre indiferentes, só enxergam o que está na exata altura do nariz. Olhassem para cima e juntos descobriríamos onde estamos, e por que em frente às igrejas encontramos e não vemos, quase sempre, estátuas de mulheres nuas.
Cadê o homem nu, essa beleza? Encontro-o vestido nas praças, não nego. Mas sempre a cavalo, erguendo armas, levando tiros, ou bustos sem corpo, pobres despedaçados.
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Meraluz, tirei da incubadeira e do freezer fotos recém-nascidas, ou há muito congeladas e paridas, que deixei numa cestinha na tua porta com um termo de adoção. Mate as feiosas como algumas tribos fazem com os bebês doentes. Delete-as rápido, antes que te apegues e percas a imparcialidade necessária para selecioná-las para o nosso blog. Minhas filhas biológicas, entrego-as a ti, para que as insira na cultura. Seja rigorosa com elas. Eu, de tanto olhá-las, me envolvo, perco o critério. São diferentes das outras, as estátuas fotografadas por mim. Reconheço seus mínimos detalhes e a instabilidade de seus ângulos. Doem em mim suas partes quebradas, sujas, pintadas com cocô de pombo. Revejo-as nos meus trajetos diários, condoída com o abandono em que se encontram, e só fico tranqüila porque sei que as encontrarei sempre, embora mortas, ali. Leve-as com cuidado, como tens feito, para o mundo virtual, onde ganham vida, recriadas por ti.
Meraluz, por que será que as estátuas têm pombos na cabeça? Como são esquartejados os bustos! A homenagem perde sua pompa e ridiculariza momentos imortalizáveis da História. Quando cresce o mato, chafarizes secos. Se jorram água abrigam bandos de mendigos, alcoólatras e gente que mora na rua e ali se banha, se ensaboa e lava roupa, como quem se sente em casa. Gosto de visitar as estátuas que fotografo, para ver como estão. Engana-se quem pensa que estão sempre iguaizinhas. Noite ou dia, sol ou chuva, desenhos de pinceladas de merda e um detalhe fundamental, que as torna sublimes, gozadas ou humanas: onde pousará o pombo?
Meraluz, quando chove, as estátuas ficam limpas: a nua da Candelária, a Imaculada, os dois homens a cavalo, o padre catequizando a menina, o tenente ferido. Bravos, sensuais, imortais ou ridículos, todos limpinhos.
Durante meses, fiquei obcecada pelo Monumento. Enorme, no meu caminho diário. Emocionam-me suas cenas representando a dramaticidade das relações humanas. Gastei dinheiro, rolos e rolos de filme, irritei-me. Uma pessoa me sacaneou quando cheguei feliz com um envelope cheio de fotos fresquinhas, dizendo: E agora? São fotos de homens lindões, ou DE NOVO aquelas estátuas cheias de cocô?
O pombo humaniza a estátua. A estátua petrifica o pombo. Impossível separá-los. O pombo ridiculariza a estátua. A estátua dignifica o pombo.
Essa foi a concepção original do pombo ao idealizar a menina. Representar o quanto nos machucamos quando injetam visões de mundo pré-concebidas dentro da nossa cabeça.
Não faço safáris fotográficos. No máximo, às vezes, saio pela ciclovia. As paisagens que fotografo são emolduradas pelas janelas dos apartamentos dos amigos. Os artistas de rua, encontro-os ao acaso nos meus curtos trajetos rotineiros, pontuados de beleza e dramaticidade.
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A VISTA E A NESGA DE HORROR OU BELEZA QUE A GENTE VÊ PELA FRESTA
A vista e a nesga de beleza que a gente vê pela fresta. Ambas devidamente fotografadas: a janelona aberta durante a insônia mostrando o dia raiando, o sol, quedê ele? A bananeira dando flor vermelha, só mesmo espiando pelo basculante com muito olho torto e cabeça virada. A beleza que nos afronta na rua, a beleza que não vemos porque estamos dormindo, a beleza que está a um metro e meio escondida e descobrimos na brecha. Da mesma forma o horror que nos afronta, que nos desperta no meio da noite, tiroteios e fogos de artifício camuflando os gritos, confundindo-nos. O horror que fecha os olhos, que vira a cara, que pensa em outra coisa. O horror que reparamos atentamente quase invisível na bela praia carioca de verão vermelho e Morro Dois Irmãos, lindo cenário de fundo: uma mulher negra sentada entre as latas laranjas de lixo na areia alisando o cabelo de seu filho pequeno, falando com ele e chorando. O ambulante na praia, já velho, que pára, faz uma careta e aperta com a mão uma veia enorme nas costas da perna, respira fundo sem olhar pra trás e segue gritando: Olha o mate gelado!!
O carnaval foi embora e levou a folia. Durmo sem batuques. Os transeuntes, os camelôs, os mendigos, os pedintes. Está tudo normal, agora. A diversão não é mais obrigatória. Tampouco a alegria. Posso enfim sentir-me nostálgica sem culpas. Os blocos que fugiam dos foliões, enganando-lhes o lugar dos ensaios, a hora, o dia, recolhem suas maravilhosas e patéticas fantasias. Se ao menos eu soubesse o que tanto se comemorava, talvez fosse levada pelo cordão umbilical da euforia. Latas recolhidas, amassadas, vendidas, recicladas. Estradas apinhadas de gente retornada para os seus respectivos lugares. A vida retoma seu curso. Basta matricular-me.
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Se a cidade do Rio de Janeiro fosse uma moça seria linda e porca. Inteligente e corrupta. Sensual e sem juízo. Saudável e suja. Andaria em más companhias. Porque o carioca é cordial mas não respeita as regras de trânsito. A maioria dos guardas está conversando enquanto os carros param nos cruzamentos, os ônibus param onde bem entendem e fogem rápido dos idosos. Um assalto no meio da rua é invisível como mais um pombo emporcalhando a cidade. O Rio de Janeiro tem as praias, a Lagoa e a Baía imundas. Água servida. E o trânsito tão caótico quanto seria a cabeça da moça linda e porca.
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Vontade de arrancar a cabeça dessa corruptela safada que joga no esgoto de seus próprios bolsos a dinheirama sugada pela veia do nosso pescoço, mão leve que se enfia em nossas entranhas e arranca o suor, o tempo, a saúde, a roupa nova, o remédio, o cinema que não fomos, o bife que não comemos, o curso que não fizemos, a doença que não tratamos, e nos entopem de siglas, de boletas, de ralos por onde aumentam os serviços básicos e nos chupam as glândulas de canudinho. Crime de homem público devia ser agravante de pena. De volta a guilhotina em praça pública para os ladrões do dinheiro público. Cabeças rolando. Churrasquinho, cerveja e pipoca pra admirar o evento. Compro pela Internet o primeiro ingresso. Maracanã lotadinho. Degola de colarinhos. E o nosso dinheiro de volta. E a nossa saúde de volta. E as vidas que perdemos, tudo de volta, com juros, correção monetária e pedidos de desculpas de joelhos dos culpados, coitadinhos. Eu assistindo. Nunca serão desculpados, serão decapitados. Eu rindo.
CONTINUA
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SANGRIAS
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PENSAMENTO DE HOMEM
LÁ NA PUTAQUEOPARIU TEM PRAIA?
Ele passou a semana em Sacramento de novo com os filhos ¿e a mãe¿. Ele é casado e pensa que não é, então fica culpado porque no fundo sabe que é casado e pensa que não é católico mas é, no fundo acha errado o cara casado pular a cerca porque jurou ser fiel na alegria e na dureza mas não é. Mas talvez ele não saiba disso que eu sei porque penso que adivinho pensamento de homem.
Não consigo deixar de tentar adivinhar pensamento de homem!!!!!! É vício, cara, simplesmente não consigo! São mais de quarenta anos tentando adivinhar e achando que adivinhava. Dei o primeiro passo: não sei o que se passa na cabeça dos homens, digo a mim mesma ao levantar. Mas, se começo, é impossível parar, basta a primeira tentativa e todo um pensamento vai se encadeando minha mente e não consigo parar de narrar o que vai na cabeça do cara. Sei lá o que o cara tá pensando!!! Eu sei lá! Vai ver que é mentira, que nem foi pra Sacramento coisa nenhuma, que foi pra Puta que o Pariu e não quer me contar. Lá na Putaqueopariu tem praia????
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O PENSAMENTO DO HOMEM
Ele arruma o apartamento bacaninha, ninho, compra cerveja e põe pra gelar, varre a casa, aspira a casa, lustra a casa, compra calça nova, limpa o carro por dentro e sai com a moça. Pela primeira vez. Faz tudo pra impressionar, pena que se atrasa, mal dos homens, nunca conseguem chegar na hora, parece que o relógio é hormonal. Sentam-se num barzinho e tomam vinhos, cheios de expectativas. Ela não pára de falar, emenda um assunto no outro, é inteligente, instigante e interessante até a hora em que começa a relatar todos os seus ex casos. Por fim, ela diz que passou a noite em claro porque viu o nome do Fulano numa lista da Internet. Ele, que já vinha broxando ao longo da fila interminável dos ex, ganha o balde de água fria, o tiro de misericórdia e desiste da moça. No ato. Como levar pro seu ninho hoje uma moça que passou a noite ontem acordada por causa de outro? O OUTRO estaria lá, fantasmagórico. O OUTRO acaba de sentar-se imaginário à mesa e ocupar todo o espaço em volta. Ele decide pedir a conta, levar a moça em casa e partir pra outra, antes que o coração acorde e comece a atrapalhar.
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FIDELIDADE À TODA PROVA
Os morcegos enxergam no escuro. Os atobás são fiéis. Há pessoas que nascem com a voz previamente afinada. Há pessoas que vêm ao mundo despreparadas para, numa só vida, aprender matemática. Outras, ainda pequeninas, somam de cabeça. Outras, compulsivas, são antecipadamente infiéis. Os pombos-correio sempre voltam, não importa a lonjura. Há pessoas que se perdem no bairro onde moram. A região do cérebro destinada à Geografia extraviou-se nas conexões nervosas e foi reciclada talvez para memorizar ritmos. Ouvi dizer que um bilíngüe pode levar uma pancada num local muito do específico do crânio, sumindo de dentro da cabeça uma de suas línguas. E mamãe me dizia: Glorinha, as pessoas não mudam. Ela já não me escuta: Nem com uma trauletada na cabeça?
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AMOR HORMONAL
Uma preguiça atávica de continuar pela vida afora esperando telefonemas, adivinhando pensamentos, analisando comportamentos, seduzindo um seduzir sem fim. Uma leveza básica agora que formalizo em mim o encerramento dos trabalhos, neste momento em que isto é normal e digo adeus ao amor hormonal. A menina que já sofria pelo menino que naquele dia não apareceu no telhado para fingir que soltava pipa e espiá-la cumpre trinta anos de relacionamentos amorosos, dolorosos, divertidos, aborrecidos, parecidos uns com os outros como índios de uma mesma tribo endogâmica. Tudo é mistério. E tudo é simplório se vivemos a vida sem a encrenca do palavreado. A paciência, como sola de sapato, gasta, esgota-se e não duela. Morre naturalmente sem ter se perdido jamais. Viro a página e vivo em paz.
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Margarida me disse que o remédio expulsou a depressão e a insônia, conforme o pedido, mas levou junto a libido. Criança jogada fora com a água do banho. Tantas perdas, algum ganho. Hoje dorme o sono dos inocentes, tesão em panos quentes, congelado, sem dores, sem calores, fogachos, machos. Sem sofrimento. Margarida não quer conserto. Quer medicamento.
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PÂNICO. DOIDO É QUEM NÃO TEM.
Desde que decidiu abolir os remedinhos, o pânico cravou as unhas bicudas em seu coração como um guarda-sol cravado na areia, a ponta da lança firme no mesmo lugar e o cabo girando longe feito ponteiro, como poço sem fundo e sem água, buracos que não servem para nada, exceto o da barraca que evita o sol e não maltrata ninguém. Tentou segurar a onda como um surfista louco. Tentou segurar a barra como um halterofilista desequilibrado, e equilibrar-se na corda bamba como um equilibrista bêbado, e nadar num mar de lama pensando que lavava a alma. Sabia que do chão não passaria e sabia muito bem. Mudou de idéia e medicou-se porque o mar não tá pra peixe, acabou-se o que era doce e é melhor um comprimido na mão do que dois pássaros negros voando muito além. Pânico. Doido é quem não tem.
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O CHÃO É O LIMITE
Esquisito é viver em paz com tantos pedintes, tantos planos que foram por água abaixo feito chuva torrencial na escadaria, tantas mortes na família, tantos parentes afastados, tantas dores cicatrizadas em feridinhas de casca grossa e vermelhinha, tanto medo de que acontecesse o pior. Sorria. Sorria porque tudo poderia ser pior. Sorria porque do chão não passaria. No máximo, alguns palmos.
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PESADELOS RECORRENTES NÃO RECICLÁVEIS
Esvaziar o armário triplex da memória e comprar tudo novo na loja do futuro. Junto, tudo que não mais serei, dobrado numa sacola plástica e doado a alguém bem jovem que esteja precisando de esperanças manequim 42. Junto, tudo que não espero mais e que de tanto esperar quase se gruda em mim como uma pinta. Encher os armários com desejos novos, sonhos inéditos, e jogar no lixo os pesadelos recorrentes não recicláveis. Não carregar o passado como uma mala de rodinhas. Quero um futuro, rebatizar-me. Amnésia. Com tanto espaço liberado no HD da memória afetiva, lembrarei, de cor e salteado, todos os filmes que vi na vida e seus nomes, personagens e atores, tudo na ponta da língua, armando beijos triplex futuristas.
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Trauma é quando a gente apanha muito num mesmo lugar. Trauma é sofrimento repetido. Sofrimento novo, acho que agüento. Divergências inéditas. Decepções desconhecidas. Boto na balança e pende pro lado dos ganhos, das experiências inesperadas, da vida em curso. Sofrimento velho de guerra, seqüela, sofrimento cheio de intimidades, que já me trata por tu e entra sem bater na porta, como se fosse da casa, como se fosse parte, esse enxoto agora com vassoura, grito ou trabuco. Me mudo. Muda, bifurco. Crio asas, vôo alto correndo riscos, rindo, me estabaco mas não caio no mesmo lugar. Quem sabe até aprendo a planar.
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LOOP INFINITO é quando uma função entra num erro e se repete indefinidamente até que o usuário interrompa o processo. Eterno retorno. Somos aprisionados por situações que nos perseguem, que nos descobrem, não importa se mudamos o cabelo, se envelhecemos, engordamos, lá vêm elas, pé ante pé, como gêmeas siamesas idênticas e fantasmagóricas, trazer para o nosso coração sempre a mesma assombração, um homem que só muda de nome e que não vemos pois ele só precisa, por exemplo, ser alto e homossexual enrustido, ou louro e intelectual violento. Com tanto filme bom passando, minha vida traz a mesma cena e se fujo dela, caio no buraco negro, de onde nada sai. Digo não ao loop infinito, dou um boot, armo um bote e caio fora. Não me pegam mais agora. Fiquei free.
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BULA DO AMOR
Certos amores curam. Outros, mal comparando, são como alergia. Basta, portanto, não chegar muito perto. Doença ou remédio, é imprescindível saber distinguir quem colore a nossa vida de quem a inferniza. Mais que isso. Ninguém passa dos quarenta alheio a tão importante lição de Química e Metodologia. A proximidade de alguém pode ser a balsa que nos salva ou o maremoto que nos afoga quando naufragamos de amor. A convivência sufoca ou aduba o sentimento. A separação banaliza ou endeusa o que era humano. Saber distinguir, com exata precisão cirúrgica, se é hora de pular fora ou de pular em cima é uma sabedoria milenar sem aplicação prática, mas extremamente rica em poética. Um manancial de metáforas. Amores se afastam de nós sem expor claramente os motivos. Aceitemos suas escolhas porque fazemos as nossas igualmente imotivadas. O sentimento, que parecia saudável e forte, simplesmente dá o último suspiro e fenece. Para o parceiro, é a morte. Sei quem me quer e me teme e lamento ser temível. Sei quem me esquece. Também podemos ser classificados e reclassificados como maremoto ou monotonia. Entretanto, todos nós gostaríamos de ser, um para o outro, bálsamo, inferno e alegria.
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Tenho te esperado, meu amor. Sentada num banquinho, concentrada pra não fazer nenhum movimento brusco, não dizer nenhuma palavra errada. Não tenho me desesperado, feito cobranças, criado falsas esperanças. Nem desistido, nem insistido. Tenho te esperado. Amarrada num banquinho, amordaçada pra não gritar nenhuma palavra errada, dopada pra não levantar e sair à sua procura. Mas tenho aguardado, incorporada ao banquinho, corpo pixado pelos meninos artistas seqüelados, franja cagada pelos pombos que enfeitam e avacalham as cabeças das estátuas e das bobas desidratadas em flor.
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DEVEDORES ANÔNIMOS
A primeira vez que dei um cheque pré-datado foi só para experimentar. Achava que ia ser só aquela vez. Mas a verdade é que dali para entrar no cheque especial foi um pulo, nunca mais consegui sair. Fiz uma viagem e levei um cartão de crédito internacional imaginando que, parcelando, quitaria tudo em poucos meses. Aproveitei minhas férias. Porém, eu pagava e a conta não diminuía. O segundo empréstimo quitaria o primeiro e renegociaria a dívida, com juros mais baixos e um prazo maior. Daí surgiu um imprevisto. Minha empregada entrou na Justiça contra mim, fizemos um acordo e tive que pagar uma quantia pequena, mas que enrolou minhas finanças de vez. Cheguei ao fundo do poço. Pegava empréstimos, dava cheques pré-datados quando o dinheiro não dava, comprava tudo parcelado, até comida de supermercado. Tornei-me uma dependente do Banco. Hoje sou uma devedora em recuperação. Recebo, pelo correio, cartões de crédito que pico em mil pedacinhos, folhetos com fotos de mulheres bem vestidas e sorridentes que não devem nada a ninguém e rasgo sem ler.
Ainda devo, mas aprendi que nunca o primeiro pré.
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SE FOR DO BANCO, DIGA QUE NÃO ESTOU
Quanto maior a dívida, maior o crédito. Deve bem quem é rico e deve muito. Quando o telefone toca e chamam por Dona Maria, já sei: é cobrança. Estou ferida. Me aguardem, escorpiã renascida. Ferro elétrico, um dia na semana. Net desligada, luzes apagadas, freezer fora da tomada. Pagarei tudo aos poucos e nunca nunca mais pedirei nadinha aos Bancos. Eles vão me telefonar, enviar cartõezinhos, cartas assinadas, oferecer brindes, sorteios, flores, dinheiro fácil. Vão implorar, imprimir cartazes convidativos com fotos de jóias, carros, casas, barcos, viagens, passeios, homens lindos. Mas eu serei irredutível. Dinheiro gostoso é o meu, mesmo magrelo e baixinho. Pagarei alto nossos juros, sem dar um pio. E o Banco que me esqueça. Vingança é um prato que se come frio.
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Como um marido desconfiado, como um detetive esperto, como um rabo. Queria seguir minha CPMF como quem segue um córrego que vai dar num rio de dinheiro. Pra onde vai esse rio? Pra vala comum dos recursos públicos? Para o mar da corrupção? Para a modernização de um hospital público? Alguém precisa me prestar contas antes que eu cometa uma loucura. Que sigla abusada é esta que entra na minha conta sem senha e sem convite, me dá uma facada e leva meu dinheirinho suado pra globosfera? Desfalcada, impotente, roubada, otária. Tacitamente assaltada. Mensalmente invadida na minha privacidade monetária. Queria ser um mosquito quântico, uma mosquinha virtual, um vírus inteligente, pra seguir, sem ser vista, cada movimento dessa grana que era minha e que me escapa pela rede, sem que eu tenha como comandar ou conhecer seu destino.
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A pé, escrevendo em blogs que ninguém lê, sem talento para relacionamentos, sozinha, trabalhando onde trabalho para sempre e nos fins de semana andando no calçadão até o cu fazer bico. E aí? Depois dos quarenta não tem mais história? Não quero a entorpecência dos drinques e das trepadas fáceis, os mesmos papos inúteis reclamando de homem, adivinhando pensamento de homem e antecipando a menopausa. Quero a alegria ou o silêncio. Livros, remédio para dormir e paciência para suportar o desfile de dias gêmeos e enfileirados e chatos como soldadinhos na parada. Que inferno. Ouço fogos de artifício. O lugar onde moro é um subúrbio alegre, as ruas são feias, as fachadas não vêem pintura há anos, a calçada é emburacada e desigual, repleta de cadeirinhas com bêbados em cima e falsa alegria, mentes alteradas. Orelhão não funciona, lixo acumulado, tudo é ladeira, vivo suando, bufando e carregando sacolas com comida. A grana é curta. Se tomo um chope, fico culpada. Se pego um táxi, fico culpada. Quero um volante, um guidón, uma manivela para reverter isso! Quero a depressão de volta. Penso em abolir meus remedinhos. Quero ficar inconformada de novo, insone, deprimida, chorando à toa, quero rebelar-me. Desde menina tinha horror a isso: a maldição dos alegrinhos. Quero parecer desgostosa. Detesto os velhos desleixados e barrigudos que me paqueram. Detesto os homens jovens que me ignoram. Quero usar burca, dormir pelada, cortar pelanca com a faca, esfaquear-me.
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MEU NOME É MARIA
Acompanhar meu saldo bancário é uma tarefa mais misteriosa que a origem e o destino do universo. Entenderia a Cabala, os Arcanos, os Arquétipos. Na secretária eletrônica, uma voz de homem me pede pra ligar pro Banco Real com urgência. Ligo de volta e na minha agência ninguém sabe de nada. Está tudo bem com sua conta, Dona Maria, me dizem. Mais essa: virei Dona Maria. Meu nome é Glória, Maria da Glória, mas, por favor, me chamem de Glória, quase imploro. Não adianta. Continuam rebatizando-me. Nada contra Maria, acho até um nome bonito. Mas dos outros. Da minha sogra, da minha amiga Maria Borba, da mãe de Cristo, da vizinha. Há algum tempo eu me debato com essa questão de identidade. Tento enfiar na minha cabeça que EU SOU A DONA MARIA. Pois se é esse o meu PRIMEIRO nome. Todas as Marias da minha geração, Maria de Fátima, Maria Fernanda, Maria Cristina, Maria Isabel, Maria Cláudia (era moda no tempo do meu nascimento), todas viraram Dona Maria, como eu, a marca das contemporâneas. Tento conformar-me e aceitar a mudança como fazem algumas tribos de índios que recebem um nome novo a cada fase da vida.
Tensa, renomeada, preciso estudar matemática para a prova de domingo. Mas não consigo concentrar-me depois de tantos e enigmáticos telefonemas. Dona Maria está uma pilha, ilhada, irada, febril, sozinha.
Foi dado o veredicto. Fiz prova numa sala com oitenta Marias.
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SENHORA
Primeiro estranhei. Hoje gosto que me chamem de senhora. Outro dia comprei uns biscoitinhos no camelô da esquina e o vendedor me peguntou:
-Tu vai querê sacola?
Quase disse:
Que intimidades são essas? Eu conheço o senhor, por acaso? Meu nome é Dona Maria e exijo ser chamada de SENHORA! É cego? Não está vendo que SOU uma senhora?
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TESTE VOCACIONAL PARA A TERCEIRA IDADE
A alegoria que melhor representa as guinadas que quero dar no meu percurso é a roleta onde aposto quase todas das minhas fichas em determinado acontecimento futuro, cor/número, e quando, no girar aleatório do jogo, quero as rédeas da minha vida, esforço-me para ter controle sobre elas, faço tudo direitinho e ainda assim sinto-me num cassino planejando as próximas jogadas, as próximas conquistas, à mercê da sorte e do azar desprovidos de qualquer planejamento. Olho pra trás e faço um balanço entre empenho e destino e o saldo é um certo desequilíbrio entre o rumo que eu traçava no mapa do papel da mente e os resultados obtidos. Queria ser livre leve solta e fui forçada pelas circunstâncias a ser metódica. Queria um companheiro lúdico e estou free. Queria estar me aposentando como meus contemporâneos mas esqueci de pagar o INPS e me vejo escolhendo o curso que vou fazer, insegura, sonhando com um teste vocacional para a terceira idade, como bem disse a Rita Abreu. Rejuvenesço, quando teço planos para uma vida nova. Agora eu vou pra lá, penso, quase torcendo o volante, mas a vida de quem foi alternativa e autônoma tantos anos se impregna de uma sensação, mesmo enganosa, de desgoverno e, ainda que servidora pública há seis anos, sinto-me numa balsa à deriva, em busca de terra firme que existirá em algum ponto do meu se-é-que-existe Destino. Remo sem conhecer a posição das estrelas e tenho a nítida impressão de estar dando tiro pra tudo quanto é lado quando na verdade é mentira. Obstinadamente tracei um plano e pelejo. Mas não sou dona absoluta do meu futuro, como ninguém é. Canto aquela velha canção que mamãe ouvia: Quem eu quero não me quer / quem me quer mandei embora / e por isso já não sei / o que será de mim agora. Não existe a mínima possibilidade de voltar atrás e aceitar aquele emprego na Editora Abril, que me ofereceram em 1988, que recusei porque havia sido convidada para participar do programa de entrevistas do Clodovil. Dispensei empregos em prol das performances poéticas, recitar pelo mundo meus versos de cor. Meus cinco minutos de Glória. Mamãe sempre dizia: Faz um concurso público, minha filha. Eu ria. Ela, tadinha, morreu sem ver a filha poeta funcionária, ou talvez esteja vendo, gargalhando, e dizendo no Céu: Quem ri por último ri melhor.
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NÃO HÁ ÓRFÃOS
Hoje estou muito feliz.Aprendi de novo o que é um decâmetro, um hectômetro, um número primo. Que beleza! Obrigada, Márcio. Obrigada, Henrique! A trajetória humana é uma caixinha de surpresas! O fato de durante toda minha vida não ter precisado dessas informações não quer dizer que um dia, subitamente, não possam ser preciosas. Nem que seja só pra passar num concurso. Provavelmente na Administração Pública há situações em que saber que um conjunto vazio está contido em qualquer conjunto seja imprescindível para melhorar a qualidade de nossas vidas. É só parar pra pensar. Nunca menospreze o que você não sabe, só porque você não sabe, como saber? Realmente nunca tive ocasião de colocar em prática a raiz quadrada mas, volto a dizer, sinto que ela é importantíssima, senão não estaria há tempo aqui, e aqui vai continuar, mesmo depois de nós. Ter vivido uma vida sem olhar pra ela não foi por querer. É que escolhi as Ciências Humanas. Nem escolhi, nasci com essas familiaridades. Compreendia melhor a interdição do incesto como moeda de troca equivalendo-se à linguagem, do que o centímetro cúbico, que sempre se manteve afastado de mim. A Literatura, a Fotografia, a Antropologia, a Arte pintaram no meu destino. Interessaram-me, sobretudo, porque precisei delas, muitas vezes, para não me jogar da janela e sobreviver. Mas e daí? A Matemática é maravilhosa! Raciocínio lógico! Hoje, com meu parco conhecimento, adquirido no livro que meu sobrinho de onze anos não usa mais, posso te dizer, em poucas horas, quantos alunos tem um colégio, sabendo-se que 120 não têm pai professor, 130 não tem mãe professora, 5 têm ambos os genitores professores, 55 possuem pelo menos um dos pais professor e que não há alunos irmãos. O Colégio tem 155 alunos, gente! Basta ir na secretaria e contar.
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MADINHA
Helena, minha madrinha, tinha unhas grandes e vermelhas que me coçavam as costas pra dormir, quando eu era criança. Batizei madrinha Helena de Madinha. Como sou a primeira neta, o nome pegou, todos os primos chamaram-na assim e, mais tarde, os amigos chamaram-na de Dona Madinha. E assim, Madinha virou Madinha até hoje. É minha tia, foi meio minha mãe. Tem um casal de filhos e três netas em escadinha. Pares de olhos verdes pontuam as gerações da família. Laços fortes de convivência nos unem. A madrinha da minha irmã também virou Madinha Didi. Assim, mamãe deu às suas duas únicas irmãs, suas duas únicas filhas mulheres para delas serem madinhas. Mamãe morreu, a caçula. Não sei por que, todo mundo foi morar em São Paulo, aos pouquinhos. E hoje uma longa estrada me separa, estou sozinha. Sem mãe nem madinhas. São Paulo é muito, muito longe, quando a gente queria a companhia diária das tias, dos primos, a intimidade gostosa com cada palavra nova, cada papinha, cada pequena mudança nas meninas. São Paulo é muito, muito longe, quando tudo o que eu queria agora era coçar as costas da Madinha com minhas unhas grandes vermelhas, até que ela adormecesse, como uma criança.
"A situação continua a mesma
sem alterações em seu quadro geral.
Ela passou por uma Hemodiálise.
Continua em estado crítico".
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Adeus.
A saudade tem seu charme, Madinha, posso apagar o passado recente e rejuvenescê-la em minha memória. Quero guardá-la bela, mulherona que na minha infância tanto me encantava. Não envelhecerás. Serás a bela Helena, de humor instável, temperamento forte, língua ferina pronta para respostas afiadas gozadas rápidas, desconcertantes, gênio terrível, sensualidade à flor da pele, trágica beleza, amores explosivos, orgulhosa, irreverente, autêntica, brava, rancorosa, engraçada, debochada, alegre, linda com seus olhos verdes e suas longas unhas vermelhas, sofrida, sofrida. E depois divertida na sua extrema obsessão de dar valor às mínimas coisas.E comover-nos repetindo sempre ao telefone, antes de desligar, com a voz embargada de quem se despede: amo vocês. Guardo-te em mim. Que o Mistério de onde um dia você veio te acolha de volta, singularizada. Tomara que a gente morra e não se misture de novo às estrelas, mas mantenha essa unicidade, atribuída à toda obra de arte de nossa cultura, para que, quando chegar o meu dia, a gente possa se encontrar de novo, matar as saudades, sem as amarguras e os dramas terrenos, e rir como dois anjos sem dor e sem pecado.
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O RISO É RENOVÁVEL E MINHA SALVAÇÃO
Sou compelida a fazer graça, mesmo dramática. Cai um pedaço de mundo na minha cabeça como um novelo emaranhado e me flagro enrolada tecendo planos para futuros, vibrando com possibilidades que talvez não se concretizem. As funções aborrecidas do dia-a-dia, as perdas iminentes, os becos sem múltiplas saídas, as amargas notícias que os jornais diários selecionam, chapam, e fazem questão de nos jogar na cara sem análise, como um pão puro de ontem, nada, nada consegue tirar de mim a excitação de matricular-me num curso novo, a expectativa de uma porta boa entreaberta. Um otimismo poliano que me deixa infantilizada, a manifestação de um sintoma que, em vez de manifestar-se em febres ou espinhas, nubla a realidade e me deixa com esse olhar de satisfação quase idiota. Sou palhaça, avoada, alegrinha, e quando eu morrer os Titãs vão dizer:
- Ah, poderia ter amado mais e sido mais amada, poderia ter sido famosa, feito um pé de meia, poderia ter sido até mais feliz. Mas jamais dirão:
Esta perdeu oportunidades preciosas de rir.
Isso nunca. Quero gastar toda a minha cota de riso desta encadernação.O riso é renovável e minha salvação.
A CHORAÇÃO
A choração passa como uma gripe, como uma chuva. Lavados, prosseguimos. Recuperando a graça de sermos tolos com a sabedoria de quem sabe que é poeira de vento, pó de estrela, passagem, leve, que nada pesado nos sobrecarregue porque viemos a passeio e já passamos da idade de sofrer por tolices porque conhecemos de perto o indiscutivelmente triste. E só quem viu o que é indiscutivelmente triste de perto é capaz de dar uma gargalhada quase à toa, só porque estamos puros, meio crianças de visita. Tudo será breve quando olharmos pra trás e já tiver passado, bonança. O ataque de riso é sagrado. Dele exijo fartura.
RETIRO O QUE DISSE
Retiro o que disse ontem. Às vezes uma frase vingativa escapa e detonamos um relacionamento. Às vezes se vive e se morre uma vida inteirinha na feliz ignorância de um fato. Se a verdade tem dois lados, vamos ficar com o bom. Um incentivo, um elogio, um eu te amo, adoça o coração, mesmo que falso.Uma desculpa, uma satisfação, um pedido de perdão, mesmo que falte o arrependimento. Tudo é melhor que a agressão do silêncio e do sumiço. Segredos podem ser caixas de veneno trancadas a sete chaves. Segredos podem ser riquezas que selam amizades. Amálgamas de individualidades. Sou o que sei. Certas coisas, melhor que não me contem. Quem diz o que quer ouve o que não quer. Em boca fechada não entra mosca. Quem fala demais dá bom dia a cavalo. O silêncio é de ouro, mudei de idéia.
Hoje em dia as pessoas mas esclarecidas dizem aos filhos adotados que são adotados. Há algumas décadas, quem revelasse um segredo desses arriscava-se até a levar um tiro. Hoje em dia os médicos dizem a verdade aos próprios pacientes e não mais a seus parentes. Um médico é capaz de dizer, e disse, eu vi:
Os remédios não estão mais fazendo efeito, o organismo não está mais respondendo. Eu sempre disse à senhora que um dia isso ia acontecer. Não há mais nada a fazer.
A paciente que ouvia era minha mãe. Saímos do hospital de braços dados, em silêncio, até que ela me perguntou do que eu mais me lembraria dela. Do seu senso de humor, respondi. Então ela me disse: o que eu mais gostei na vida foi de namorar. Ela morreu pouco mais de um mês depois, com o namorado a seu lado. Deixou vários envelopes, orientações burocráticas e bilhetes. Endereços para onde eu devia ir, documentos que tinha que levar. A verdade foi um procedimento adotado, tanto por ela quanto pelo médico. Tanta realidade exigiu de nós um autocontrole que rasgou meu coração para sempre. Sete anos depois tenho uma ferida aberta, oculta e quieta. Se por acaso esbarro, como dói.
A VERDADE ASSUSTA E FAZ RIR
A verdade assusta e faz rir mas gosto dela com suas mil facetas despistando. Segredos são como bolas de fogo corroendo entranhas. Gosto de espelhos, confissões, sinceridades. Frases tascadas na cara feito tapa. Cada vez mais, falo o que penso e me estrepo. De que tanto se envergonham as línguas travadas, as meias palavras, mudanças bruscas de assunto, chás de sumiço. Ninguém ouve a verdade inteira. Nem que seja a do momento. Nem que se esteja enganado. Se eu não fosse escritora, seria uma mulher-bomba sem explosivos. Voaria em pedaços só com a combustão das palavras. Atrás delas me escondo.
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MUDANÇA
MEU MOSTEIRO TEM PISCINA
Meu mosteiro tem piscina. Mas não vou, estudo. Os fios brancos, pinto. O fel, destilo no teclado. O de letras. O mal, despejo no papel, no HD, na sala de ginástica, nas longas caminhadas, como um exército de formigas que não transporta folhas, caminhamos ida e vinda, sem objetivo a não ser andar que é usar as pernas antes que elas se atrofiem. Ao redor da Lagoa, do Leme ao Leblon. Do Leblon ao Leme. É quase uma delícia. O cenário me abriga e me acalma. Na tela do micro fico refletida como um espelho por causa da claridade excessiva. O que não souber narrar, invento. Pescar palavras fortes - calvário destroços cativeiro - torna nossa banalidade trágica.
Como um rio sem berço, fonte sem nascente, voltei para o bairro que hoje me abriga, que leva meu nome sem conhecer-me e no qual transito reparando para familiarizar-me. Se eu tiver que deixar o Rio de Janeiro, ou se aqui ficar, refaço meus laços. Hoje, a cidade não me acolhe. Hoje, alimentam-me as lembranças. Os hábitos mudaram. Estive alheia. Saí do coma. Onde estou, então, se aqui não é minha cidade? Investigo os cantos que me abrigariam, pra descobrir novos recantos, fazer novos amigos, cultivar os antigos como rosas, como vinhos. Renascer madura, rio novo que irrompe do escuro da terra para o solo fronteiriço. Perdi Ipanema hoje, como na infância perdi a Praça Malvino Reis, meu pai e o Minas Tênis Clube.
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Quantos cacos de vidro refletem a caleidoscópica cidade, inúmeros olhos para mirá-la, admirá-la ou lamentar-lhe a sorte, pobre naco de terra abandonada pelo Poder Público e abençoada pelos Deuses que perdem forças com o passar dos anos, com a seqüência predadora dos governos.
As janelas da cidade são labirintos de espelhos. As janelas da cidade são labirintos de espelhos. Meu mapa. Exijo um mapa impresso que me oriente.Exijo anjos que me sinalizem, sonhos que me estimulem, dias ensolarados, luzes brilhantes que me iluminem a Metáfora.b Exijo uma Estrela-Guia que me dê boas dicas.< /b>
O Rio de Janeiro é uma cidade variada. E eu quero morar perto de alguma ciclovia. Nossos trajetos diários ganham lupas. Temos novos olhos. Lentes que captam pormenores, vilas bifurcadas inusitadas esquinas. Os Classificados são o bisturi. Com ele traço um longo corte na barriga da cidade.
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PERDI MINHA PEDRA GIGANTE, MEUS BEM-TE-VIS, TÃO GAGOS
A cidade se contorce para que a poesia continue a mirá-la. Perdi meus micos, minha pedra gigante, meus bem-te-vis, tão gagos, minhas andorinhas e morcegos disputando o vôo rasante da água e desaparecendo nos buracos do muro alto como quem atravessa paredes. Perdi a respiração da mata, a orquestra de ruídos indecifráveis e inseparáveis que se alternam conforme as estações do ano, o pulsar dos ventos naquelas folhas, a lua que eu olhava rápido, as cigarras desesperadas agonizando seu canto de morte e veraneio.Empacoto-me e mudo, tentando ser leve e básica, e vejo Niterói do último terraço.Poucas malas, carrego no olhar a poesia que me ressuscita. Mudar de endereço é remexer nas entranhas da nossa morada, perder caminhos, ganhar ruas novas, surpreendentes trajetos, inusitadas descobertas, é andar de olhos bem abertos para o inesperado e esperá-lo. Espiar por novas janelas. Dar bom dia a novos vizinhos. E deixar pra trás. Acordar de manhã e, antes de abrir os olhos, estranhar: onde estou?
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PASMACEIRA É REQUISITO
A pasmaceira é requisito para os remendos de agora. Trata-se de um retiro. Trata-se de um tempo. De uma desconstrução. Juro que não vou passar o resto da minha vida assim, disciplinadamente séria e econômica. Um dia os portões se abrirão e eu ainda estarei inteira. E poderei voltar à vida, retomando à força toda a magia que voa livre, quase invisível, mas que é de quem pegar. Tendo um chão para pisar, voarei livre levemente louca. É uma questão de procedimentos.
Quero ser como um caramujo que carrega a casa nas costas, livre das arquiteturas, belas tábuas corridas, lindas divisórias, cores fortes nas paredes, flores enormes artificiais no hall dos elevadores. Resistimos. Resistimos às mudanças, mesmos às boas, porque somos pequeninos nos nossos noventa metros quadrados, uns em cima dos outros como cemitério de gavetas.
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UM PILOTO AUTOMÁTICO CONDUZ MEUS DIAS
Um estranho piloto automático conduz meus dias, que são todos parecidíssimos e, por uma misteriosa razão, à qual não tenho nenhum acesso possível, sinto-me confortável. Acordo e funciono ritualisticamente. Num tempo que arranjo não sei como, procuro apartamento para alugar, mostro apartamento pra vender, escaneio e trato fotos para blogar. Não estou apática, estou vibrando. Sinto-me forte, alegre, bem-disposta, lúdica. Não me impressiono com essa seqüência de vida clonada. O que me espanta é que funciono. Será que amadureci? Será que estou por fora? Será que me bloqueei? Será que me bloguei, que sou virtual agora? Será que um anjo me conduz? Ou será que nem tudo que reluz?
ARRUMO OS ARMÁRIOS DA VIDA
É necessária a reclusão voluntária a que me submeto. Como um atleta na concentração, como um salão fechado para reformas, hoje quase me escondo. Paciente na estação, espero o trem da vida alegre passar de novo quando eu estiver pronta. Não deixarei que me cantem, sussurrados, os velhos motes. Não serei de novo o que fui, nem o que esperam que eu seja, de acordo. Acordarei rebelde, alegre gozadora, quando as longas obras terminarem. O que é bom é bom, guardo e cultivo. O que é ruim vai pro lixo. Gavetas, caixas, malas, porões, sótãos, envelopes, pastas, embrulhos, nada me escapa enquanto aguardo a reinvenção do mundo. Arrumo os armários da vida.
CASAS SEPARADAS
Tudo muda de repente as coisas já não estão mais no lugar nem os móveis que se separaram nem os morros, os micos, outros morros, outros micos e ondas de um mar que ficou mais longe, de um ninho que embelezamos tão rápido e que tão rápido se desfez num apartamento vazio, outro novo onde só você mora e eu visito, sofrendo descobrirei a alegria de reencontrá-la. Enfeitaremos nossas casas novas para que você tenha duas casas agora, porque a minha é tua tanto quanto um dia teu corpo morou no meu.
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MEUS PERTENCES
Quando os medos e as culpas se dissipam, somos capazes de enfrentar as situações mais adversas, se há saúde. As fases são contornáveis porque transitórias. Que o tempo passa rápido é uma realidade que não necessita demonstração. Aparentemente o caos está instalado, as roupas misturadas, os livros espalhados, os pertences na mais absoluta desordem. Mas, se dentro de nós, dentro do possível, os sentimentos estão arrumadinhos, mesmo que arbitrários ou personalíssimos, somos capazes de atravessar os dias em paz. administráveis. Quem naufragou no grande mar do sofrimento, e sobreviveu, e sarou, sabe a exata proporção dos sacrificiozinhos de riacho raso. Porque remanejei a memória e deletei todo o lixo, e porque tenho uma saúde de ferro, posso achar graça dos pequenos infortúnios bolhas de sabão e até rir deles. Rir de nós mesmos é uma graça divina. Uma gracinha. Rajadas de vento não são rajadas de metralhadora. Indesculpável é não saber distinguir.
OS FILHOS SÃO COMO FLECHAS
Perdi as certezas de vista, meu mundo é de pano, estou no limbo. Pés plantados no chão, invejo quem os tem com profundas raízes, mas afrontam minha natureza se tento imitá-los, como um gato inveja o tigre. O rato inveja o morcego. O pato inveja o cisne. Voa o pássaro crescido e abandona o ninho. Voa a ave-mãe e abandona o ninho. Migramos. O verão está em outra parte. Que os filhos são como flechas para o mundo que com a mão firme atiramos, Gibran já dizia. Que os pais de boa pontaria acertam seus alvos, nos informaram. É o arco vazio a imagem que intriga.
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O AVESSO DA VIDA
Mudar de endereço é tirar do lugar tudo que somos, separar as lembranças que dispensamos e jogar no lixo. Virar do avesso nossa vida, como se vira uma bolsa usada diariamente e sacudir até cair a moeda de um centavo presa na costura, olhar aquele monte de treco misturado a objetos sem os quais não se poderia viver. E separar, como lixo reciclado, como joio e como trigo, o que deixaremos pra trás, o que levaremos conosco para toda vida. É rever faces que tivemos e estranhar, às vezes nem reconhecer. É ver surgir num retrato de infância o nosso olhar eterno, uma essência que já nasceu conosco e que permaneceu, com suas belezas e imperfeições, apesar das cores de cabelos que tivemos, dos corpos que habitamos e que se transformam diariamente, apesar dos penteados estranhos, dos amigos perdidos, dos amores que morreram para sempre, dos que não morrerão jamais, dos mortos, dos feridos, dos convalescidos e ver surgir o nosso olhar eterno como num espelho: essa sempre serei eu. Mudar de endereço é remexer nas entranhas da nossa morada, perder caminhos, ganhar ruas novas, surpreendentes trajetos, inusitadas descobertas, é andar de olhos bem abertos para o inesperado e esperá-lo. Espiar por novas janelas. Dar bom dia a novos vizinhos. E deixar pra trás. Acordar de manhã e, antes de abrir os olhos, estranhar: onde estou?
AMARGURADOS GIGANTES
Quando eu era criança, a vida era mais larga. Morávamos numa casa imensa no Grajaú, com mangueira no quintal e viveiro de periquitos maior que meu quarto de hoje. O Natal, passávamos em São Paulo, num casarão enorme onde a gente se enfeitava, abria presentes e comia, comia, comia. Os domingos, passávamos em Copacabana, onde as crianças brincavam, os adultos bebiam, cantavam, recitavam, discursavam e às vezes dormiam. Hoje a família está dispersa, os apartamentos são pequeninos, o mundo diminuiu. Visito apartamentos menores que o viveiro dos periquitos. E cresço pra dentro, como os amores secretos, as unhas encravadas, as vagas lembranças e os tumores internos que invadem a memória de tudo que é recente, e se tornam amargurados gigantes.
A CASA QUE HABITA EM MIM
Projetar a vida pra frente remando contra as lembranças, não querendo trazê-las comigo como um rebocador, guardando-as dentro de mim como um tesouro, tentando desvencilhar-me, cultivando-as, aparando-lhes as arestas, editando nossa história, mergulhando de cabeça no passado, arriscando-me a bater com a cabeça no fundo porque o passado era raso, olhando pra frente como se olha pela janela da casa da alma e vê vida chamando, caminhos, hasteando esperanças enquanto dói a dor de perder Madinha, enquanto procuro casa nova sem vontade de ir embora desse ninho verde que habito. O amanhã me convida, me espera, enquanto meus pais dançam eternamente na sala da casa grande da infância onde não voltarei jamais, à casa que habita em mim como um órgão vital.
O IMPOSSÍVEL
Vertigem da liberdade, vôo solo, num momento da vida em que não há planos de casamentos, filhos, carreiras, novos amigos. Cultivamos os antigos como flores raras e frágeis. A solidão é o fantasma que assombra, o ponto de interrogação que não foi convidado se infiltra em nós intruso e se coloca depois das palavras como um duende para assustar de propósito. E depois? E se? E se não? Queria meu bebê de volta, meus vinte e cinco anos, meus pais nesse mundo, o impossível.
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O BAIRRO DA GLÓRIA
A cidade tem muitos cantos e eu tenho fama de doidinha. Por isso posso olhar seriamente o mar de longe e sofrer porque a vida não é longa e temos que carregá-la conosco como uma mala de casco de tartaruga. Por isso posso experimentá-la, tendo-a esquecido. E apontar o Museu de Arte Contemporânea, tão pequenino do outro lado, como quem mostrava os micos pras visitas. Mudar de endereço é tirar do lugar tudo que somos, separar as lembranças que dispensamos e jogar no lixo. Virar do avesso nossa vida, como se vira uma bolsa que usamos todos os dias e sacudir até cair a moeda de um centavo presa na costura, olhar aquele monte de treco misturado a objetos sem os quais não se poderia viver.
E separar, como lixo reciclado, como joio e como trigo, o que deixaremos pra trás, o que levaremos conosco para toda vida. É rever faces que tivemos, reconhecer, estranhar, às vezes sequer identificar. É ver surgir num retrato de infância o nosso olhar eterno, uma essência que já nasceu conosco e que permaneceu, com suas belezas e imperfeições, apesar das cores de cabelos que tivemos, dos corpos que habitamos e que se transformam diariamente, apesar dos penteados estranhos, dos amigos perdidos, dos amores que morreram para sempre, dos que não morrerão jamais, dos mortos, dos feridos, dos convalescidos e ver surgir o nosso olhar eterno como num espelho: essa sempre serei eu.
Em Búzios comprei uma biruta e pendurei no alto da casa do Alto Glória, na esperança de que um helicóptero extravagante jogue um puçá e mude minha vida. Somos duas em casa agora.
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O Aterro do Flamengo era meu cineminha diário pra ir pro trabalho que não me cansava de admirar. Cinqüenta minutos da porta de casa à porta do trabalho se transformaram em quinze. Agora virei mulher subterrânea sobre trilhos, que se vê refletida na janela escura. Quando o locutor em off avisa: Próxima estação, Glória! tenho a confiante tranqüilidade que passar do ponto distraída é coisa do passado. Ouço meu nome e entendo, minha estação chegou.
Vi papagaios rondando a minha nova casa no alto e ouvi o assobio dos saguis sem vê-los. Bem-te-vis gagos comentavam entre si seus nomes. Bem no miolo do Rio de Janeiro. Talvez em breve eu possa desempacotar-me. Morte simbólica, sumiram de vista meus objetos, meus caminhos de ida e volta. Desgovernei-me na primavera. Mas a cidade é mágica por isso, porque não perdeu a inocência selvagem dos bichos. E andando meia hora ou menos estou no Centro. Cinelândia é nossa praça européia e nosso depósito de meninos. Cine Odeon marcando os bons tempos. Por baixo da terra os trens nos levam pra Glória. Uma estação nos separa.
Vontade de voltar pra casa porque há um canto que me espera impregnado de referências e enfeites. É pequeno. Lá, meus pertences não cabem, livro-me do desnecessário, amplio seu conceito, obrigo os objetos escolhidos a fazerem contorcionismo e me conformo: morando sozinha no Rio definitivamente não necessito de três cobertores.
Quando fui morar no bairro da Glória, sentia-me homenageada porque a papelaria, o caminhão da transportadora, a cooperativa de táxi, a pensão, o hotel, o teatro, o outeiro, tudo se chama, como eu, Glória. Até o Pet Shop é Bicharada da Glória. Tem rua com placa: Acesso à rua da Glória. Eu era a própria Joana Angélica, viva, passeando pelo calçadão.Um mês depois, estou saturada. Lá, eu me sinto como se perguntassem meu nome, e eu dissesse:
- Ipanema. Meu nome é Ipanema.
Na Glória, tudo chama Glória.
Confira as fotos.
Um amigo enciclopédico me disse que duzentos degraus equivalem a doze andares. Sem contar que estamos no alto de uma ladeira. É por isso que quando deito na minha cama, abro as janelas, e fico admirando a vista, o que vejo são gaviões, urubus e aviões sob o fundo azul do céu. É muito céu. É céu pra cacete! Se existir Deus, vou acabar dando de cara com ele. Algum recado?
Leila, estou satisfeita com minha casa-malhação, no alto do mundo. Acho que finalmente vou ter bunda. Subir escadas dá bunda? Subo na boa, só não posso olhar pra cima que me dá vertigens e acho que não vou conseguir. Mas já coloquei uma cadeira em frente à sua casa, para descanso entre os primeiros cem degraus e os próximos cem. Assim teremos nossa prosa diária garantida.
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MATURIDADE É ADOLESCÊNCIA AO CONTRÁRIO
Maturidade é adolescência ao contrário. Na adolescência, Hormônios saltam pelas narinas e confundem nossas cabeças, a gente tem um mundo à nossa frente, não sabe se quer ser hippie ou ministra da cultura, é linda e se acha feia, tem medo das coisas no futuro não darem certo.Na maturidade a gente já fez o que pôde fazer, o resto será adorno. A gente tem certeza absoluta do que jamais será, nem hippie nem ministra da cultura. A gente envelhece e se acha cada vez mais originalmente linda. Com muita dificuldade, esquecemos completamente tudo que não deu certo. Temos o que não se tem quando se é muito jovem: amigos há vinte, trinta anos. Temos um mundo à nossa frente, o nosso,aquele que a gente selecionou, salvou e fez back up.
MATURIDADE
A MATURIDADE É CHATA COMO UM CONDOMÍNIO FECHADO
A maturidade é chata como um condomínio fechado. Segura, como uma excursão de senhoras. Não se sofre mais por amor, mas quando as contas atrasam. É a insônia quem nos surpreende clandestina no meio da noite, amante fria, seca e secreta, indesejável intrusa, ladra de sonhos, vigília inoportuna que oferece o tenso e silencioso espetáculo das ruas desertas, da lua sem dono boiando no céu negro, e o vazio de uma cidade aparentemente sem vida e com medo.
EI-LA, LEILA
Cavo fundo os alicerces. Logo eu, que já fui náufraga. Cuido de mim mesma como quem cuida de um bebê prematuro. O que tenho sou eu e a minha esperança. O resto invento, inventario. Saí da vida de propósito para desfazer-me. Um dia dirão:
- Ei-la. Pés firmes no chão e sem marcas aparentes. Até de amar, quem sabe, será capaz, a louca.
LABIRINTO DA CRIATIVIDADE
Queria o que não pude. Mudei de idéia mil vezes.
Vivi perdida no labirinto da criatividade. Medo do amanhã, do ridículo, das novas e inevitáveis perdas. Não há mais pai nem mãe para morrer. Profissão para escolher. Amor imprevisto para nos surpreender, ingênuos, confiantes, desavisados, porque a qualquer momento o coração poderia disparar e acontecer. Não há mais anseios, só ansiedades.
LABAREDAS BAILARINAS
Meu coração é um senhor metódico, previdente, prevenido, articulado, pão-duro, fechado, introspectivo, com quem já não me identifico..Ainda tenho a chama, quente, escondida na manga. Temo que seja tarde. Temo que seja forte. Como um incêndio, labaredas bailarinas douradas fabricando destroços.
A CHAVE DO CATIVEIRO
Vou despertar, estejam seguros. Vou fugir desta prisão financeira, arrimo de família, tripla jornada. Entrei no jogo do empréstimo porque era balsa e eu me afogava. Fiz um pacote pesado cheio de anos de vida, a minha, e agora troco por dinheiro. Sem ganância, vou botar ordem no bambolê dos planetas. Organizar as órbitas descontroladas e retomar meu signo. Vou telefonar pros amigos que tenho e que ainda estão vivos, mágicos, por dentro, por fora e do avesso. Vou garimpar, recolher agulhas do palheiro. E vou dar uma big festa e convidar o mundo inteiro. Assim que localizar, meticulosa procura, a chave do cativeiro.
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MARINO, SEJA BEM-VINDO AO PLANETA TERRA
Marino, seja bem-vindo ao Planeta Terra. A vida é meio atrapalhada mas a gente curte algumas coisas que fazem com que ela valha a pena. Uma é a arte, a música. Sobre isso, seu pai e seu irmão podem te dar vários toques. Outra coisa muito boa é o bom humor, a alegria e a arte de fazer e achar graça onde a maioria das pessoas (a maioria é chata, infelizmente) não consegue achar. Sua mãe é PHD em risos, sorrisos e gargalhadas. Acho que você deu muita sorte porque a gente não escolhe onde vai nascer. Ofereço-me para ser sua tia. Se você aceitar, está autorizado a me chamar de tia, ou de Góia, que gosto muito, o Julian assim me rebatizou. Não sabia falar Glória, me chamava de Bóia. Maíra era Baía. Como é bilíngüe, mistura, dizia que o piano quebroken, que as coisas estavam in dentro, chamava luva de gluvas e um monte de besteiras que divertiam a gente. Adulto se diverte ouvindo criança falar errado, você vai perceber. Meu nome, de baía passou pra Góia e eu gostei. Ofereço-me também para tomar conta de você. Tomei conta do Julian inúmeras vezes, tenho carta de recomendação da Kris. Deixo criança comer açúcar puro, pão com arroz, ketchup de colher, biscoito na hora do almoço, sorvete na hora do jantar e outras maluquices que você inventar. Era vizinha do teu pai e amiga da tua mãe e os dois se conheceram sem o meu intermédio, mas, concluo, iam acabar se conhecendo de qualquer maneira. Sexta-feira que vem, por exemplo, tem ensaio do Suvaco do Cristo no Baixo Santa do Alto Glória e provavelmente, se você não tivesse acabado de nascer e não estivesse dando o maior trabalho, os dois iam ser convidados e iam se conhecer. Você seria adiado para o ano que vem. Não leve a vida muito a sério mas tente manter os pés no chão. Dizem que a vida é curta, mas não acredite. Ela é longa pra caramba e está cada dia aumentando ainda mais. A expectativa de vida para pessoas não estressadas está em quase cento e vinte anos. Vá com calma, tem muita coisa aí pela frente. Não vá ficar chorando só porque a chupeta caiu.Torço pra que você seja um menino bacana como teu pai e tua mãe, que seja feliz, juntando-se a nós, sua família alternativa: Maíra, Julian, Kris, Jorge, Bruno, Teca e outros amigos de seus pais.Tem a família de sangue, a que a gente nasce dela, e tem a família que a gente constrói ao longo da vida, que a gente nasce nela. Posso te dar boas referências de seus pais, fique tranqüilo, os dois são gente boa e nunca vão atazanar você. Assim que você for liberado pra pegar sol, venha tomar um banho de mangueira na laje, é muito maneiro. A gente vê Niterói, o Museu de Arte Contemporânea, navios, aviões, papagaios, bem-te-vis, cachorros, urubus, minhocas e sagüis. Bem, por enquanto você ainda não sabe o que é nada disso, mas com o tempo vai aprendendo. Posso te dar uma força pra você não confundir minhoca com bem-te-vi, etc. É facílimo, não fique assustado. Ninguém confunde, não há de ser você que vai confundir. É só ter paciência. Na vida a gente nunca pára de aprender coisas. Quando a gente pensa que sabe tudo, aí é que danou. As verdades mudam de roupa, e temos que estar sempre correndo atrás. Bem, cara, é isso aí, espero que você curta tua tia aqui. O Planeta Terra é bacana, apesar de tudo, vale a pena viver. Beijocas da Góia.
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